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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Grupo InquietAÇÕES

Grupo de Pesquisa e Extensão InquietAÇÕES: arte, saúde e educação
Descrever sobre o ensino nas escolas e desdobrar suas funções, obter conhecimento através de referencial teórico, planejar através da aula-teatro um conteúdo educacional, ensinar e receber informações com diferentes profissionais da educação que experimentam do ensino-aprendizagem para uma qualificação dos estudantes. Essas foram algumas das formas que o Grupo Inquietações trabalhou durante a realização do Programa de Apoio a Projetos de Intervenção Metodológica (PAPIM). Durante dez meses o grupo se lançou no projeto com o objetivo de levar através da arte teatral uma forma de se trabalhar com outro olhar. Modificando em apresentações a relação de professor-aluno sobre temas como: Medicalização, que busca falar das doenças existentes nas instituições de ensino do Brasil. 

Nas atividades de campo levávamos aos professores um dialogo do uso do medicamento, de como eles observavam os alunos dentro dos rótulos (patologia, autismo, TDH, dislexia, TOD) e tinham como referencias os tipos de comportamentos dos estudantes. Para se trabalhar com uma nova forma de ensinar, o grupo durante os encontros pesquisava uma forma de atuar com os estudantes. Trazíamos referencias das escolas e dos tipos de comportamentos e aplicávamos nas aulas de teatro o material coletado das observações para um novo ensinar sobre esses comportamentos.

Avanços teóricos, experimentais e práticos obtidos: 
As aulas de expressão teatral levaram o Grupo Inquietações a outro estado de percepções onde as criações dos sentidos mostrassem o grupo numa vivencia além da abordagem da informação. Foi através de exercícios de improvisação e criação de cenas que descobríamos uma forma de levar o debate da medicalização para as escolas e ruas. Trabalhávamos com nossas imaginações, partindo da seguinte pergunta: o que é que me inquieta? Essa pergunta foi um mote disparador para termos uma ideia do que poderíamos trabalhar durante nossos encontros. 

Imaginação, corpo, improviso, histórias de vidas e arte educação; no inicio tirávamos dessas palavras um leque de conhecimento do que queríamos levar para as escolas, quem iria nos assistir e como levaríamos a informação para o outro. Foi através dos jogos teatrais e da participação coletiva que descobríamos fazendo como eram os usuários e as pessoas diagnosticadas com algum tipo de transtorno. 


Integração do Projeto PAPIM com o ensino, a pesquisa e/ ou com a extensão: 
No inicio mostrávamos o que sabíamos, como era a reação das pessoas, onde isso interferia e como chegava à observação do outro. Tivemos como referencia um espaço (sala de aula) para entrar num cenário em que era possível diagnosticar os casos que trazíamos para os nossos encontros. Onde os casos surgiam? Em que lugar ele poderia ser observado? Foi através do autismo, da imperatividade e da ausência de sentidos que desdobrávamos para outro lugar. Desdobrávamos nossas criações de cena partindo da ideia de pesquisa-ação; colocávamo-nos como meros reprodutores da informação, como personagens existentes nos espaços de socialização: 

 "Entendida como uma ação que visa a mudanças na realidade concreta com uma participação social efetiva, a pesquisa-ação crítica está centrada no agir, através de uma metodologia exploratória, tendo seus objetivos definidos no campo de atuação pelo pesquisador e pelos participantes. Seus resultados estão vinculados à tomada de consciência dos fatores envolvidos nas situações de vida imediata e na participação coletiva para a mudança da ordem social. A identificação de problemas e possíveis soluções e o estabelecimento de programas de ação constituem procedimentos que podem ser utilizados com a ajuda de técnicas tradicionais como as da pesquisa documental, dinâmicas de grupo, informações vivas e opinativas dos participantes". (BRANDÃO, 1987) 

Nossas aulas se transformavam num espaço de compartilhamento de ideias, numa intervenção teatral. Éramos opressores; oprimidos sem causa num espaço de aprendizado. Com as ideias que surgiam nos encontros, montávamos situações cotidianas que passassem uma informação do que queríamos trabalhar. Sempre nos ensaios colocávamos questionamentos, inquietações do nosso posicionamento como humano, como cidadãos. 

Efeitos do Projeto PAPIM na reestruturação e qualificação de cursos de graduação e na atualização de seus Projetos Pedagógicos: 
Para se chegar a um bom resultado partimos da pesquisa como indutor da busca de fatos para uma formação profissional e educacional. O grupo inquietação que tem como maiorias participantes discente na formação de educadores, busca relacionar através de suas aulas praticas uma nova formação através da arte. Levantando um novo questionamento no curso que amplia seu conhecimento além da ementa da grade curricular. Elaboramos através da aula-teatro uma nova qualificação, tendo o entendimento do ensino a partir da ação; fazendo e aplicando o conteúdo nas salas de aula e intervenções artísticas. 

Durante as aulas de expressão mostrava uma mistura de exercícios teatrais desenvolvidas a partir dos jogos teatrais do livro “Jogos Teatrais: o fichário de Viola Spolin”, que traz cartas de dinâmicas e jogos para ser aplicado em um grupo de teatro, e buscava informações no livro “Jogos para atores e não-atores” do Augusto Boal que apresenta formas de fazer teatro para qualquer publico e em qualquer espaço. A ideia era sempre entrar num jogo e desenvolver uma cena partindo dele. Buscava despertar o interesse teatral nos participantes do projeto e socializar o aprendizado entre o grupo, buscando incentiva-los a conhecer mais sobre a arte cênica por meio de técnicas corporais, leituras e criações. 

Com esse planejamento, buscava ferramentas para desenvolver o que tínhamos como ideia. Junto ao grupo, transitávamos com o teatro a partir da realidade em que o aluno vivia e como a escola apresentava essa vivencia. Tínhamos coletado um bom material para trabalhar. Misturávamos para apresentar um bom resultado através dessas discussões, jogos e a vivencia com a turma. Foi através desse pensamento que pretendíamos aplicar nossas discursões nas escolas. 

Com os exercícios realizados nos encontros do grupo, montamos duas cenas: a primeira foi uma intervenção na rua que existiam vários tipos de sintoma em que cada um se libertava das correntes que lhe prendiam a doença; a segunda se passava numa sala de aula onde os alunos eram diagnosticados pela coordenadora com vários sintomas que se sujeitavam ao comportamento do cotidiano das crianças. Com as cenas, mostrávamos para o publico de professores uma visão do que realmente acontecia nas escolas e logo em seguida entravamos numa conversa para encontramos uma solução para ser aplicada no ensino das instituições. 

Efeitos do Projeto PAPIM junto a Sociedade: 
Levar a educação para além dos muros da universidade foi um dos objetivos do grupo. Durante esse processo vivenciamos em três escolas processos diferentes do nosso planejamento de ensino, e achamos importante falar delas em nosso relatório. Junto com os professores percebíamos uma nova forma de lhe dá com os problemas recorrentes nas escolas; nelas mantínhamos um novo dialogo. Paulo Freire na sua obra “Pedagogia da autonomia” diz que o dialogo e a melhor maneira de produzir conhecimento e libertação, pois e um meio de comunicação onde se permite fazer questionamentos através de criticas construtoras e transformadoras. 

Ao final de cada apresentação da Aula/Teatro o grupo abria para uma roda de conversa e debater sobre o tema da medicalização da educação, usando como artificio introdutório algumas perguntas disparadoras para iniciar o debate. Dessas perguntas juntávamos a comunidade com os acadêmicos numa formação de ideias. Transitávamos entre teoria-pratica-vivencia para desenvolver um dialogo que apresentasse um caso. Dele tirávamos a total observação enquanto estudo. Como solucionar casos existentes na sala de aula? Dessa pergunta disparávamos ideias para um resultado. Modificação do mostrar, ensinar. 

Assim, a comunidade externa compartilhava de suas vivencias o conteúdo mostrado nas apresentações. Traçando o um fio-contudo que levasse a pesquisa feita nos encontros do grupo para o alcance das escolas. Foram relatos de experiências que com nossas atividades e conversas trocávamos, ensinávamos e recebíamos uma nova possibilidade de recepcionar os alunos. 


Das atividades feitas além do muro da universidade, tivemos como resposta um grande conteúdo de informações para aplicar em nossos trabalhos: mudança de cena; novas formas de aplicar o ensino; efeito da atividade nos alunos; como eu comunico o outro. 









As apresentações das cenas trabalhadas na universidade foram levadas ao publico em locais como: escolas públicas da rede estadual e três intervenções em outros espaços. A primeira aconteceu no Fórum Internacional de Saúde Mental ocorrido no dia 25 de março de 2015 na UFPA, a segunda na praça da república no dia nacional de luta antimanicomial ocorrido no dia 24 de maio e a terceira no Solar da beira no dia 28 de maio de 2015.

Grupo InquietAÇÕES
Coordenação: 
Lucia Lima
Participantes: 
Bernard Freire
Suellen Ferreira
Dayane Brandão
Paulo Almeida
Laura Norat
Nathália Dourado
Amanda Corpes
Débora Amanda
Thayná Marques 
Antonio Denis 
Priscila Anjos

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Entre rosas, vento e a deslocação da arte

Crítica teatral do espetáculo ''ROSA DOS VENTOS: Entre Miragens e Mirações'' da Trupe Perifeéricos.


A sombra dança na tela cujos movimentos desenham imagens. São corpos dilacerados por um foco de luz que se esbarra no lençol.  É a energia antes de entrar em cena, é um silencio de imagem. É a expressão que brinca com sons, é aquela ansiedade que só se acalma quando a luz apaga e o filme começa. É a caixa preta high tech, é a ''ROSA DOS VENTOS: Entre Miragens e Mirações''. Espetáculo montado pela Trupe Perifeéricos que convida o público a entrar numa fábula de magias e encantos. Se perdendo entre flores e poesias. Modificando a presença do ator entre realidade e mídia. Substituindo o palco pela tela, onde a cenografia apresenta o real-ficcional, um filme que está sendo gravado agora.
Dentro dessa caixa a Trupe se desconfigura em atuação, desobedece à comunicação presencial, muda o foco, te coloca em outros horizontes e te faz perder a vida de perto. Traz uma dramaturgia marcada pelo vídeo que logo surge em cena onde o teatro vivo fica suspenso e acaba sendo uma ilusão. A Rosa é esse deslocamento, não tem ponto fixo, é perdida no vento. É uma miragem que coloca o público num sonho, mistura o som com o olhar do caleidoscópio e brilha na explosão da informação, é “multiplicação de signos no aparecimento de formas e no retorno do artifício que se anuncia como tal”. (AMIARD-CH EVREL, 1990, p. 10)
O espetáculo começa sendo rodado numa projeção onde o corpo do Dermond se distorce, mostra um desentendimento de lugar, eleva o pensamento e se bagunça como o vento. Esse desentendimento de lugar mostra uma reconstrução teatral, coloca um vídeo no meio do palco e se sustenta em duas linhas que converge entre história e espaço. Coloca o público no ar, voa, traz de volta para cena e abre para mundo. Onde se dá o espetáculo? O que estou assistindo?
A presença de duas linguagens tira um e põem outro, balança no real-ficcional, substitui o texto teatral pela utilização de recursos audiovisuais como prática de dialogo. Mostra uma bagunça de lugar e deixa o sentido das assombrações no silêncio do palco, bem quieto e só se apresenta quando os atores estão em cena. Traz uma verdade bem disfarçada que a projeção esconde na retina. Ali ela se expande e coloca o teatro como reprodutor da fábula; mostra quem é soberano e faz tudo isso funcionar colocando em evidencia sua influencia no nascimento da sétima arte.

Bernard Freire 
22.03.2015 

Referência Bibliográfica
AMIARD-CH EVREL, Claudine.Frèresennemis ou fauxfrères? (théâtreetcinéma avant leparlant). In: Théâtreetcinémaannéesvingt. Tome 1. Paris: L’âgeD’Homme, 1990, p. 10.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Rosácea das forças

Eu canso quando o som ao redor se expandi dentro de mim. Mostro ausência de sensatez e me cubro de metáforas aglutinadas na minha imaginação. Busco um revés que modifica os estreitos caminhos oblíquos da rotina. Paro. Sufoco em pensamentos. Desabo em poeira soltas que invadem minha retina. São tempos rápidos e o entendimento dessa situação gera um caos nos poros que aniquilam o individuo. Tudo é confuso. Bagunça encaixotada. Energia esquálida derradeira. Movo, prendo-me a mim mesmo. Observo o andamento das paredes e caio no chão que sustenta o mundo. Tudo é frenético. Ausência de motivação. Grito escorado nas cordas vocais. Vazio cintilante que acompanha a rotina. Circulação interrompida pelo espaço. Olho de dentro e não enxergo nada. Tudo é fato. Choro trancado. Batimentos que soltam os brilhos invisíveis. Palma. Estabilidade caminhante. Encadeamento imóvel. Até aqui o silêncio busca um confronto com ele mesmo. Por de trás, visões encandecestes que te sustentam na linha cotidiana. Fluxo de sentimentos. Pedaços embrulhados num lencinho de papel. Ar codificado de gases. Movimentação psicodélica. Tudo é misturado, andamento retardado, choque de explosão do intestino.
27/08/2015 

*Rosácea das forças: "trata-se de um espaço direcional adaptável a todos os movimentos do homem, sejam eles físicos ou psicológicos, um simples movimento do braço ou uma paixão devoradora, um gesto da cabeça ou desejo profundo, tudo nos leva ao 'empurrar / puxar'". (O corpo poético - Jacques Lecoq, 2010)

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Fuga

O blog é uma extensão de mim; um plano de consistência para as minhas ideias, ações, pensamentos, escrita; um ponto de fuga que discorre das sensações que gritam no interior. É um espaço que muda as coisas de lugar; coloca as ideias e a prática em organização. Comunica a forma de organicidade, mostra o conteúdo da essência, ilustra a ideia de um devir. 



segunda-feira, 30 de março de 2015

Congratulações

Hoje o blog completou quatro anos de existência e eu relembrei dentro de um flash tudo que aconteceu de lá pra cá. Aqui foi o espaço onde decidi que a minha vida seria mais diferente. Bom, aqui eu teria a minha imaginação em processo de construção teatral. O teatro entrou na minha vida num momento tão foda que agradeço tanto por ele ter me escolhido. Não tinha tantas expectativas em transbordar através do Corpo Palavra e decifrar o que acontece comigo durante os dias. Fico vendo que aprendi bastante coisa que me deixam a vontade em compartilha-las. Modifico o mundo em relação a mim. Meu corpo se transforma em palavras e as palavras são o meu corpo em construção. Aqui respiro, piso, voo, eternizo. Fico no plano baixo, médio e alto. Mantenho foco e sigo caminhando. Ando de costa, de lado, deitado, rastejando. Tenho a minha vida de cabeça pra baixo. Corro e percorro por todo o espaço. Minha voz é aguda-grossa-fina, é musical. Silêncio que modifica o universo. É uma pesquisa e auto avaliação. Às vezes sumo, tenho saco dessa pessoa que vos escreve. Me transformo em todos os elementos, objetos, seres e palavras. Evaporo choros, dores e gritos calados. Sou o ser do outro lado da tela que está lendo. Sou um coletivo que divaga em vários pensamentos ao mesmo tempo. Fiz um transplante imaginário onde minhas mãos são cenografia e meus pés são platôs.
Por aqui também conheci um processo importantíssimo chamado “Dramaturgia Pessoal” e um mundo em que sempre fiz parte. Revivi gerações e percorri o espaço. Me mantive em pé. Resistir. Joguei pra cima todas as questões. Mudei. Compreendi mandamentos e traduzir a realidade. Aqui me apresentei como homem de teatro. Tenho o construir nas minhas mãos, o silêncio como entendimento e a vivencia como esperança. Me relacionei com autores que compartilharam a mesma sintonia de vida na que divago. Vivenciei na rua, na caixa preta, espaço experimental e no meu intimo. Só para ter o outro olhar. Atuo em qualquer parte. Performo entre paredes a céu aberto. Reconto histórias, me perco no processo, paro de funcionar. Tento fazer alguma coisa de útil na minha vida. Faço arte. Cresço. Evoluo. Prossigo. Avanço. Conquisto.
Estou fechando um ciclo e iniciando outro. Carrego a minha mochila. Topo. Tudo bagunça. Volto e recomeço. Descanso o corpo para a mente poder acompanhar. Respiro, solto sufoco. Amo, renasço. O teatro sempre me mostra um bom ponto para recomeçar e descobrir como é que se conquista. Penso muita coisa, quase tudo. E o que me sobra no pensamento compartilho para os outros terem um pouco de mim. Aqui existe o meu caminho, as minhas ideias, minhas histórias, o meu ego, vaidade, coragem. Há uma liberdade tão grande. Ainda há muita coisa para acontecer. Isso só é uma atualização em resposta ao meu ponto de partida. Será que vou fechar mais um ciclo daqui a quatro anos e fazer outra postagem? Haha!
Teatro é corpo, movimento único dilacerado. Parado num pequeno silêncio onde o mínimo te toca. É uma experiência nova a cada momento. Nem passava pela minha mente, mas escolhi esse blog como trabalho de TCC. Ele esteve sempre aqui registrando o que venho fazendo. Ficava observando-o mesmo sem escrever e me interessei em iniciar uma pesquisa com ele. Corpo Palavra. A ideia do nome surgiu a partir do filme “Nome Próprio”, onde a personagem também tinha uma relação pessoal com o blog.
Aqui posso dizer de fato que estou pronto pro que pode acontecer. Aprendi um bocado de coisas legais. Tenho na minha mochila sonhos, vontades de me aventurar e fazer o que me dá prazer. Por mais que eu escape e o momento me sufoque, acharei lugar para respirar e encontrar a liberdade de viver o que realmente sou. Por enquanto vou iniciando uma pesquisa de encenador, ator, iluminador, maquiador, figurinista. Estou sempre em processo de mudança e a criação desse blog foi a melhor coisa que pode ter acontecido. Estou saindo da Escola de Teatro e levando isso como a coisa mais importante que me aconteceu dentro desse espaço mágico. O que vier encaro. Estou preparado. Daqui a pouco o dia termina e começa o amanhã. Deixa o blog aqui se alimentando das minhas coisas. Valeu por existir. Agradeço ao Teatro, a profª Wlad Lima, ao Blogger e a pessoa mais importante da vida que faz tudo isso aqui funcionar. Evoé.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Liberté

O corpo é ausente, figura imaginativa e física. Energia que se move perante o espaço. Dilatação de vontades. União do pensar, sentir e querer. Sentimentos que ecoam no mundo externo. É dançar, atuar; é presença. Autoconhecimento. É a linha embolada na palma da mão. Corpo é arte, é vida. É tudo o que podemos a partir do que sentimos. É mental e físico. São inúmeras possibilidades que podemos descobrir.  

sábado, 11 de outubro de 2014

Barrela – uma leitura varisteira de Plinio Marcos

Crítica teatral do espetáculo Barrela dirigida por Maycon Douglas, Grupo Os Varisteiros de Teatro


“Que puta zona é essa?! Já não se pode dormir aqui não?!” Disse Bereco ao ser acordado pelo bando que zoava com Portuga. Barrela traz toda violência ocorrida dentro de uma cela de penitenciaria. Mostrando a realidade existente nos sistemas penitenciários do Brasil. O horror, a dor, a desumanidade, revolta e pesadelo narram uma noite entre cinco atores presidiários que mostram a dramaturgia de Plinio Marcos com um corpo expressivo no contexto marginalizado. O espaço com panadas pretas e uma luz baixa, coloca o expectador a sentar no chão como se fosse um dos detentos daquele buraco fudido de merda. Em cena, um guarda rodeia os cincos detentos balançando um molho de chave e delimitando a relação artista-espectador. Somente um espectador rebelde se desvia para entrar em cena com Bereco, Fumaça, Portuga, Tirica e o louco.
A peça que foi censurada em 1958, ganha montagem pelo grupo Os Varisteiros que encerraram a segunda temporada com maior destaque na mídia local. Barrela coloca o publico como testemunha da violência penitenciaria. Cenas de estrupo com um garoto que passa apenas uma noite dentro da cela e assassinato são apresentadas com desespero e agonia, onde o espectador se junta ao bando de presos num espaço enfestado de suor, respirando e sentido a quentura daquele ambiente. Quase como uma tortura, o olhar sensível é pouco notado na peça. Mas pode ser visto na fraqueza de Bereco, que por pressão dos outros da cela, quebra a regra do comando puxando um fumo e deixando de evitar o estupro do garoto.
A peça dirigida por Maycon Douglas tem seus autos e baixos, e a linha que narra as cenas, vai dando volume ao espetáculo a cada ação. Quando somos colocados a imaginar o que vai acontecer, a tensão se diminui deixando a expectativa pra depois. Assistimos esperando algo incrível aparecer, esperando o momento corta o pensamento e irmos de encontro com a peça, tal qual pensamento de Plínio:
Escrevi em forma de diálogo, em forma de espetáculo de teatro, que era o que eu mais conhecia, mas não me preocupei com os erros de português, nem com as palavras. Imaginei o que se passara no xadrez antes, durante e depois de o garoto entrar, coisas que eu conhecia bem de tanto escutar histórias na boca da malandragem. E dei o nome de Barrela, que é a borra que sobra do sabão de cinzas e que, na época, era a gíria que se usava para curra.  (ver site oficial com obra de Plínio Marcos  http://www.pliniomarcos.com/dados/barrela.htm)

Estamos à mercê da violência, cumplices das mortes estampadas nas carpas de jornais, integrados a um contexto de informação digital impetuoso. Mas o que leva o publico a se impressionar com a apresentação? A peça montada pelo grupo Os Varisteiros, dão forma a linguagem estupida Pliniana. Atuada vigorosamente com sangue no olho e mostrando situações violentas mais do que atuais.
Barrela é a quarta montagem do grupo, e foi sentida na pele a exaustão do corpo. A construção da peça foi realizada ao longo de oito meses. Ódio, porrada, mudança de estado de corpo, foram dando tensão a montagem que pede trabalho e construção coletiva. Proposta ousada em encarar a dramaturgia de Plinio Marcos, que busca na literatura marginal um dialogo forte. Uma boa releitura da obra pelos varisteiros que avançam no que o autor escreveu, sobre um corpo dilatado além das palavras, como fala Roland Barthes:
Ora, tenho a convicção de que uma teoria da leitura (dessa leitura que sempre foi a parente pobre da criação literária) é absolutamente tributária de uma teoria da escrita: ler é reencontrar – no nível do corpo, e não no da consciência – como aquilo foi escrito: é colocar-se na produção, não no produto; pode-se encetar esse movimento de consciência, quer de maneira bastante clássica, revivendo com prazer a poética da obra, quer de maneira mais moderna, retirando de si toda espécie de censura e deixando ir o texto em todos os seus transbordamentos semânticos e simbólicos. (BARTHES, 2004)

05/10/2014

Bernard Freire