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segunda-feira, 11 de abril de 2016

Adubo orgânico para imaginação

Nesse campo teatral temos que partir sempre do que te toca, da poesia movente da ferramenta do conhecimento. É através do que se busca, do que te apresentam e da condução que chegamos ao objetivo. O discente em teatro precisa aprender com a própria vida e além dela o que a produção de tudo quer dizer; é preciso se apossar do objeto e multiplicar outros sentindo; receber os efeitos positivos e negativos para demarcar território do seu sentido; evoluir no objetivo da criação e formação de pensamento. Todos os códigos refletiram no acontecimento da pesquisa para a reprodução de símbolos, imagens e de um novo campo que cresce de acordo com as coordenadas do processo. Na minha formação buscava sempre conhecer a linha educacional que caminhava dentro de mim, do que percebia. Do que causava em mim ao produzir outros conteúdos em relação ao entendimento.

Pude colocar em prática essa linha do ensinamento adquirido no curso durante a disciplina Prática do Ensino do Teatro I, onde estagiei na Escola de Aplicação da UFPA –NPI. Foi onde comecei a perceber a educação existente em mim. Tinha a visão de um professor na sala de aula, conduzia a turma e vivenciava a minha forma de educar, buscando descobrir o ensino do teatro dentro da escola. Percebia a didática do ensino no fazer-aprender durante as aulas:

Didática é o fazer aprender, o ensinar na prática para que assim se obtenha o entendimento do assunto. Não podemos apenas ser meros ouvintes do que está sendo discutido. No modo de ensinar aos alunos, devemos fazer com que eles joguem, participem e se coloquem no processo de construção da aula para que “fazendo”, o entendimento se torna mais fácil. Assim o interesse fica sendo primordial, possibilitando ao aluno outras formas de conhecer e dando-lhe possibilidades de procurar outras fontes de querer saber mais (BERNARD, 2013).

Passava a informação através de jogos, dinâmica relacionada à outra área de conhecimento; conversava sobre teatro, arte e cultura com os alunos e me alimentava de novos saberes que escapava de cada um, sustentava o ritmo da aula com a criação de conteúdo feita pela turma. É preciso manter o controle, perceber o ritmo da cena e desenvolver um bom espetáculo em que todos participem.

O primeiro momento de percepção em entrar numa sala de aula, faz você entender o raciocínio de tudo o que acontecerá naquele espaço. A turma 801 e 803, foi a qual pude aprender a lhe dar como professor em sala de aula. Impondo-me como estudante de teatro, estagiário e professor, [...] A ultima aula com as duas turmas criei uma atividade teatral, já que a professora cedeu para a realização de um exercício dos estagiários. Trabalhei recriação de objetos e sentir um pouco de dificuldade em manter a atenção com o grupo de alunos que estavam participando da atividade. Era um contra ponto de não se expor, ter vergonha de ficar olhando o amigo, faziam rápido só para dizer que participaram. Mas o maior segredo é saber como funciona a atenção dos alunos, de onde se pode puxar para que todo o resto participe (BERNARD, 2014).


Imagem 4: Exercício de ressignificação da imagem do artista Cândido Portinari (Retirantes, 1944), NPI, 2014.

Estar em sala de aula ensinando foi gratificante além das expectativas. Participei junto com a turma, conhecia os alunos e tinha um retorno para aplicar na construção de um plano de aula melhor, mostrava o teatro na educação fundamental e em alguns casos cheguei a abrir as aulas com as propostas dos alunos.

Através desse conjunto de ensinamentos é que nos movemos, que agimos, que mantemos nosso corpo em dialogo com o espaço. Eu tinha bastante atenção em trabalhar em cada etapa que fazia meu conhecimento crescer na universidade. Era minha vida com “vida” acadêmica; tudo junto e misturado. Às vezes não conseguia avançar, parava para refletir sobre a modificação da arte e como dá andamento as pesquisas e elaboração de conteúdo. Parava no tempo. Voltava ao meu centro e avaliava a composição cênica que se instaurava na minha memória. Regressava novamente a sala de aula para perceber como tudo precisa de um espaço-tempo para haver o entendimento do novo, das possibilidades de restaurar cada etapa para prosseguir no reconhecimento da pesquisa. Tudo se regularizava em mim, minha percepção dos fatos se organizava. Entendi que no teatro somos levados pelos sentidos do movimento, da ação, de onde se parte, de cada ponto e pra onde o objeto te leva. É a regra jogo de cada ensinamento que compõe o conjunto.

O corpo, a memória, a criação depende de tempos de espera, tempos de vazio, tempos de decepção, até um momento e tempo em que um trabalho interno, silencioso e aparentemente inexistente encontra a resolução do problema em ato, em potências e em ação (COLLA, 2013, pg. 22).

Em outro estágio pelo qual passei, aprendi com essa parte significante que cada lugar tem um tempo e que a dificuldade pode trazer um novo aprendizado. Estagiei um ano e meio na Assessoria Comunitária da Companhia de Saneamento do Pará (COSANPA) onde atuei como colaborador, artista e ator-manipulador com teatro de animação para escolas, instituições e comunidades:


Imagem 5: Equipe de estagiários de teatro da COSANPA, 2013

 As dificuldades da arte naquele ambiente traziam um esgotamento de praticar o meu aprendizado e percebi várias falhas onde o teatro em alguns casos não se encaixava. Os materiais de trabalhos eram velhos, o planejamento da secretária em agendar as escolas não era resolvido, obtinha desvio da minha função de estagiário, entre outros problemas, que só me dei conta quando me perguntei qual era a minha parte nisso tudo? Como contratam um estagiário de teatro para preencher fichas de avaliação sobre tratamento de água? Foi então que a arte de se fazer teatro tomou conta de meus pensamentos, desenvolvi através de muita luta dar um novo sentido da arte naquele espaço, afinal minha função era levar a mensagem da sustentabilidade para outros lugares através da arte. Solicitei novos materiais de trabalho, escrevi roteiros para criação de novas cenas, agendei apresentações em comunidades e escolas e fui dando um novo sentido teatral naquele lugar que só parou quando a administração me colocou numa função diferente da minha formação. Meu corpo não tinha mais a vontade de produzir conteúdo. Tentei mostra uma forma de fazer teatro num ambiente onde não queriam saber e tive que pedir demissão. Segui outro caminho.

Aos poucos o discente em teatro modifica o seu entendimento, caminha na linha do raciocínio. Traz pra perto as possibilidades que ampliam o objetivo de seus trabalhos. Passa por fases que podem contribuir ou interferir no processo de formação. As grandes mudanças acontecem no seu fazer; na criação de seus raciocínios e em trabalhos coletivos onde há mudança de pensamentos, compartilhamentos de ideias e um único caminho por onde sai o amadurecimento do que se está construindo. Como estamos cavando nesse adubo orgânico para imaginação? Há o momento de parar, errar para entender, aprender com as incertezas. Quando algo modifica a regra do jogo é preciso avaliar a situação para o fluxo das possibilidades adentrarem no seu desempenho, não havendo interferência e seguindo a lei natural da vida. Um dos objetivos é fazer a sua parte e torcer para que todo o resto se encaminhe:

Sem o fracasso, o estímulo seria puro valor. Seria a embriagues; e por essa enorme vitória subjetiva que é a embriaguez, tornar-se-ia o mais incorrigível dos erros objetivos. Assim, a nosso ver, o homem que tivesse a impressão de nunca se enganar estaria enganado sempre (BACHELARD, 1996, p 295).

O estimulo vem como uma corrente que explode dentro de si, essa é a parte fundamental de um pensamento cientifico. Tudo está vivo e a nossa relação de vida com vida acadêmica não se diferencia. É preciso relacionar nosso olhar com o olhar do outro, se conectar com a esperança do destino e estar sempre em mudança, é ela que vai definir o seu potencial de diferença entre os iguais que vivem a universidade. Durante esse processo de formação os meios te levam por determinados caminhos que juntam as partes de um sistema de conhecimento que estar sempre em desenvolvimento. É preciso lutar contra a redução da vida e as dificuldades do curso, para além da sala de aula.


Em todo caso, viver quatro anos de curso dependerá de como interpretaremos a nossa performance em conhecer todos os meios de informações e cheios de vivência a nossa rotina. De como os grupos, as experiências, os trabalhos acadêmicos e profissionais se juntarão ao desempenho da função de descobrimento de sentidos. Eu descobri que não me separava por completo do teatro, mesmo sabendo que tinha outras vivências além da universidade. Tudo está em conexão. O curso influenciou muito na minha forma de pensar, demonstrar, construir o conhecimento, aplicar nas diversas ciências e planejar um horizonte para minha vida. Os trabalhos continuavam na cidade e no Brasil a fora. Durante esse plano todo busquei uma forma de organicidade dessa vivência. Um profissional em teatro deve saber interpretar bem os papeis da própria vida. É a vida existente que nos serve de material para criação.

PRODUÇÃO ACADÊMICA

Extrapolar a sala de aula e compreender a relação ensino-aprendizagem como conjunção de múltiplas e plurais atividades de pesquisa, extensão, culturais e políticas constitui um desafio. (RUBIM, 1995, p. 1)

Eu já estava do outro lado quando comecei a caminhar na minha própria linha. Fui procurar conhecer em outras áreas de conhecimento o sentido da minha arte, da minha formação como artista-professor-pesquisador. Da avaliação e aprendizado que adquiria em sala de aula, daquele espaço que faltava entre as aulas teóricas e práticas, de toda extensão que desse continuidade aos meus pensamentos e fazer discente na universidade. Desempenhava minhas funções e conhecia a dinâmica do profissionalismo, transitava e evoluía a cada passo: passei por todo o campus Guamá (institutos, blocos, R.U, beira do rio, vadião), lá encontrei horizontes que despertavam novos olhares sobre a vida universitária, conheci o mundo da pesquisa e desbravei outros sentidos; passei pelo PPGArtes onde interagi com pensamentos poéticos e leituras sobre o conhecimento da vida; pelo ICA onde contribui na produção e comunicação das informações artísticas; pelos estágios em escolas e instituições que me ensinavam a dinâmica do profissionalismo; por grupos de pesquisas, congressos e encontros que ampliavam o conhecimento artístico para o meu entendimento cênico; pelos amores, aventuras e crises que encontrava pelos caminhos que me faziam seguir a diante e acabava na disciplina: Exercício da Cena 5 - Posto[1]. No meio da trilha tinha mais espontaneidade e atenção em demarcar território. Ali o caminho largo me traçava outras possibilidades de reler o entendimento do espaço, desde o universo até minha extensão de sobrevivente no planeta cosmo. Redescobria-me como um circulo que divaga em outros pensamentos que desbravam as linhas de um rizoma:

[...] Diferentemente das árvores ou de suas raízes, o rizoma conecta um ponto qualquer com outro ponto qualquer e cada um de seus traços de mesma natureza; ele põe em jogo regimes de signos muito diferentes, inclusive estados de não signos. O rizoma não se deixa reconduzir nem ao Uno nem ao múltiplo. Ele não é o Uno que devém dois, nem mesmo que deveria diretamente três, quatro ou cinco etc. Ele não é um múltiplo que deriva do Uno, nem ao qual o Uno se acrescentaria (n-1). Ele não é feito de unidades, mas de dimensões, ou antes de direções movediças. Ele não tem começo nem fim, mas sempre um meio pelo qual ele cresce e transborda [...] (DELEUZE, 1995, p. 43).

Estava no meio dessa construção universitária, algo abria os meus olhos ao som das vozes codificadas em outras línguas que embalavam a leitura do novo; da real forma de comunicação entre linhas. Quando me perguntavam qual era o meu curso, respondia de uma forma que levasse a informação até a linha de pesquisa de quem perguntava, deixando fluir a comunicação artística de um discente em teatro. Em outros momentos mostrava na prática a minha formação e dialogava com o outro. É preciso sair do descanso. Superar o absurdo. Se inquietar, esgotar a energia que te explode. Acreditar no novo, realizar sonhos, crescer ao nível do mundo. Se juntar ao estranho; deixar a sua moradia e ser a sua casa. Compartilhar conhecimento e contribuir no desenvolvimento; no documento memorável de um acontecimento histórico.

No infinito espaço procurei entender o meu campo de pesquisa, as informações chegavam de todas as partes e tentava capturar pelo raciocínio do meu aprendizado. O entendimento do conhecimento fluía e a produção acadêmica acontecia. Estava em movimento com outras linhas de pesquisa e descobria o mundo; me fazia presente até parar na dúvida e perceber por onde caminhar. Liguei o nobreak e conectei-me ao ciberespaço. Cartografei fatos (http://goo.gl/ept9sl) e organizei o andamento dos dias, das aulas, do pensamento teatral.

Tudo confunde o tempo-espaço da minha mente. Subtrai sistematicamente as condiçõesexistentes do corpo. Aperta confrontos com o coração e rompe a ligação com a mente. Olho desgarrado para as informações do mundo, procuro adaptá-la a minha rotina. Tudo se perde, sai pelos poros e a existência não me qualifica como ser. Sobrevoo, perco a noção de amplitude; esbarro no invisível que detona a imaginação por não superar o ar que respiro. Sufoco-me acreditando que amanhã será melhor. Acredito em novas fases de sobrevivência. Saio do game-over. Pulo ao som da distorção; me dilato na batida cadente da explosão do meteoro. Multiplico-me em dois pensamentos, torno-me frágil. Sou expulso da terra. Vago no infinito inexistente que me acolhe. Grito em animus, recomponho-me em anima. Sou transversal; alquimista sobrevivente por sentimentos múltiplos. Tenho arte saturada no grau zero da escrita. 

Pedir a noção dos pensamentos. A trajetória da formação teatral se aplica em todas as linguagens. Tudo é código existencialista da comunicação. Penso a arte, para obtê-la, como grande fomentadora do entendimento para o despertar de um novo amanhecer. Percebo a plenitude de territórios de conhecimentos científicos, infinitos consentimento linguístico da informação. Tudo é modo de sobrevivência. Visualidade alinhada da vida. Cartografia do som desenhado na imaginação. No raciocínio de ideias de possíveis diálogos que se transformavam às vezes em poemas de conhecimentos adquirido no curso:

– Hoje foi me apresentado a poesia de Manoel de Barros.
– Não, não era nenhuma poesia romântica.
– O romantismo ia além das palavras bonitas.
– Existia a simplicidade através do olhar do poeta.
– O olhar que poucos têm.

Fecheis os olhos e vi naquele escuro a verdadeira arte das palavras. Elas se misturavam com os objetos formando sentimentos que tiravam de mim o que já não tinha. “O que tuas mãos fazem?”, perguntou um objeto que estava esquecido no chão. Não respondi. Apenas imaginei o que elas poderiam fazer. “Para onde teus pés te levam?”, perguntou outro objeto que impedia o meu caminho. Fiquei pensando sobre isso. Acho que mesmo parado podemos ir para onde quisermos, desde que nossa imaginação se sinta à vontade.
Juntei todas as minhas indecisões e troquei por um pequeno espaço no universo. Irei construir um planeta com minhas lembranças do passado. Onde meu corpo se transformará em outros corpos para não me sentir só. Onde viver não será mais uma obrigação. Meus sonhos se transformaram em músicas para fazer a sonoplastia do meu cotidiano. Irei viver no meu mundo, onde a realidade será ficção e ficção será a minha realidade. Irei viver como num filme, num livro, numa poesia de Manoel de Barros:
– Em seu mundo inteligente e cheio de loucuras o que pretende fazer?
– Deixar minha realidade e viver de ficção para ir além das fronteiras.
– Eu não sou mais eu. Sou tudo.
– Sou todas as coisas.
(Blog Corpo Palavra, 25/05/2011)

Esse post no blog me fez perceber o objetivo de um dialogo; da onde ele parte e como é construído. Como poderia trabalhar de vários modos o meu conhecimento, praticando o entendimento da realidade e de outros códigos da minha interpretação de conteúdo. Em alguns casos demostrava apenas uma parte da minha ação, da compreensão funcional das coisas. Aprendia conhecendo e ensinado fatos que me traziam retornos pra vivenciar esse estado de ser. A presença em cada parte me trazia um bem, desde o local ao universal. Pertencia de fato a educação e pesquisa em teatro. Tinha a área do conhecimento cênico em mim.




[1] Exercício da Cena 5 (posto) é uma disciplina criada pela turma 2012 que dava continuidade a nossa grade curricular após o termino das aulas. As aulas aconteciam num posto de gasolina que fica em frente à ETDUFPA onde desempenhávamos a tarefa da descontração.  

Voz na Cena

De todas as histórias quemodificavam o cotidiano da escola, me entreguei a uma que refletia sobre o processo mais importante que fazia tudo funcionar: dirigir um Centro Acadêmico com outros mobilizadores de ideias. Lá abríamos a porta para o diferente: planejávamos a recepção dos calouros, as atividades de consentimento artístico, as contribuições que mantinham em pé a nossa casa, vivíamos de tudo. Junto com outros estudantes arrumávamos os quartos, limpávamos a sala e montávamos afeira diante do público.

Desenvolvíamos bem as atividades que exigiam nossa disciplina de discente dentro da academia. Em alguns casos buscávamos concentrar um grande número de alunos para discuti os problemas existentes em nossa instituição. Tínhamos dificuldade em nos juntarmos com o curso de Dança e os cursos Técnicos que eram em horários diferentes do Teatro. Nossa estratégia era reunir com os representantes de turmas, mas isso complicava um pouco porque a dinâmica que planejávamos nem sempre atingia a todos. Nos concentrávamos em nos politizar primeiramente.

Imagem 3: Reunião do CALT e CADAN, gestão Voz na Cena – 2013.

A centralização de nossa categoria estudantil mostrava a nossa contribuição de querer resolver os problemas que enfrentávamos na ETDUFPA. Através da nossa mobilização conseguimos uma sala para o C.A, uma xerox, organizamos encontros estudantis e debatíamos a implementação de um Restaurante Universitário que é o maior problema enfrentado pelos estudantes da escola. Sempre levávamos propostas de solução desse problema para uma direção maior que não abraçava a causa dos estudantes; gritávamos sozinhos. Foi daí para as reuniões de conselho que derramei o leite que trazia da cozinha. Na gestão que dirigi, não conseguir junto aos estudantes, resolver essa parte do problema. Como qualquer instituição, as ordens determinam até onde teus pés podem te levar; a ETDUFPA é como uma segunda casa para os estudantes que passam o dia desenvolvendo atividades que esgotam o corpo.
Nessa vivência, fui compondo versos que dialogavam com os estudantes e passei do eu para todas as outras extensões. Multipliquei fatos que conduzissem uma relação aberta entre cada indivíduo, dando voz às paredes que apenas observavam as histórias pertencentes ao universo da escola de teatro. Sentia-me bem em caminhar pelos quatro cantos e usufruir de cada detalhe, transvendo cada parte que atravessavam os meus sentidos. Ali me desqualifiquei. Parei no tempo e minha energia se desfez pelas gotas que escorriam do teto. Fui buscando pontos de fuga para desenvolver um novo raciocínio daquele espaço. Tudo gritava dentro de mim e as aulas já não faziam mais sentido. A repetição do cotidiano me desgastava e minha falta de paciência em compartilhar minhas noites me bloqueava os pensamentos. Dentro da escola zerei as condições de sobrevivência, fiquei no game over.[1]

O estranho era ver que todos permaneciam de acordo com seus movimentos, porém com a rotina de turmas antecedentes a minha. O espaço se fechou e escureceu as minhas retinas, meus pés enraizavam-se sobre um grão de areia, o ar sufocava-me como gás metano, explodia-me, ocupava-me do nada. Em outros momentos me pertencia ao céu, aglutinando-me ao silêncio movente que desenhava o não visto. Chegava à conclusão de ruptura, de desistência dos passos. Ficar preso trazia um grande conforto de não mover-se, de estar ali apenas para cumprir minha obrigação de discente. Mais que discente seria esse que não produz? Que não se dá nem a intenção de alimentar-se do conhecimento? O teatro me dava mais sede quando eu o descobri, mas a fonte já não me saciava e a ociosidade contemplava meu desempenho durante os semestres. Mesmo tendo a ideia de explorar o vazio, pra onde quer que eu corresse, me sentiria como se ainda estivesse a fazer o mesmo de sempre, sem avançar a um outro entendimento do espaço daquela escola. Precisava perfurar as camadas que encobriam a minha pele. Olhar além do olho da máscara.

Eu canso quando o som ao redor se expandi dentro de mim. Mostro ausência de sensatez e me cubro de metáforas aglutinadas na minha imaginação. Busco um revés que modifica os estreitos caminhos oblíquos da rotina. Paro. Sufoco em pensamentos. Desabo em poeira soltas que invadem minha retina. São tempos rápidos e o entendimento dessa situação gera um caos nos poros que aniquilam o individuo. Tudo é confuso. Bagunça encaixotada. Energia esquálida derradeira. Movo, prendo-me a mim mesmo. Observo o andamento das paredes e caio no chão que sustenta o mundo. Tudo é frenético. Ausência de motivação. Grito escorado nas cordas vocais. Vazio cintilante que acompanha a rotina. Circulação interrompida pelo espaço. Olho de dentro e não enxergo nada. Tudo é fato. Choro trancado. Batimentos que soltam os brilhos invisíveis. Palma. Estabilidade caminhante. Encadeamento imóvel. Até aqui o silêncio busca um confronto com ele mesmo. Por de trás, visões incandescentes que te sustentam na linha cotidiana. Fluxo de sentimentos. Pedaços embrulhados num lencinho de papel. Ar codificado de gases. Movimentação psicodélica. Tudo é misturado, andamento retardado, choque de explosão do intestino. Postagem: Rosácea das forças[2] (Blog Corpo Palavra, 01/09/2015).

Desenvolver atividades na escola se tornou mais contribuição coletiva junto aos estudantes do que ter um bom desempenho. Mudar as rotinas me estabelecia certo tipo de dedicação que se evaporava em mim tal qual algodão doce na água. Tinha que escolher entre assistir aula ou me encantar com o mundo artístico oferecido pelo outro lado do muro. Até ali eu só percebia a escola de teatro como universidade. Nada além de um quadrado que me ensinava valores profissionais que um artista deve ter na sua qualificação de cidadão. Eu rompia o elo que meu cérebro desenvolvia com a realidade durante as disciplinas que me despertavam um bom funcionamento das teorias teatrais. No terceiro céu[3] sobrevoava na pequena janela para equilibrar o silêncio que escapava quando um olhar me dirigia e me fazia buscar no ar uma explicação sobre aquele magnífico espaço que tomou conta do meu ser durante esses anos de curso.

Como um balão levantando voo, redobrava as voltas no quarteirão e desenvolvia um novo olhar sobre o entendimento do espaço. O curso me ensinava formas de sobreviver; de investir em conhecimento e desbravar as fronteiras que me aglutinavam os pensamentos.  A vontade de sobreviver me distanciava do portão; caminhar acordavam meus pés e pude reler em mim a extensão de um olhar que observava sem ser visto. Ultrapassei o muro da escola, da universidade e fui produzindo novos registros de aprendizado:

Carrego a minha mochila. Topo. Tudo bagunça. Volto e recomeço. Descanso o corpo para a mente poder acompanhar. Respiro, solto sufoco. Amo, renasço. O teatro sempre me mostra um bom ponto para recomeçar e descobrir como é que se conquista. Penso muita coisa, quase tudo. E o que me sobra no pensamento compartilho para os outros terem um pouco de mim. Postagem: Congratulações (Blog Corpo Palavra 30/03/2015).









[1] Game over significa fim de jogo, onde game significa jogo e over fim. A expressão é muito utilizada para jogos de vídeo game, computador, jogos online e etc., e aparece sempre que a pessoa chega ao fim do jogo ou acabou de perder.
[2] Rosácea das forças: "trata-se de um espaço direcional adaptável a todos os movimentos do homem, sejam eles físicos ou psicológicos, um simples movimento do braço ou uma paixão devoradora, um gesto da cabeça ou desejo profundo, tudo nos leva ao 'empurrar / puxar'". (O corpo poético - Jacques Lecoq, 2010).
[3] Terceiro andar do prédio da ETDUFPA onde fica localizada a sala da direção geral da escola.

SALA DE AULA

Tinha aquele lugar que chamávamos de: a sala. Era um espaço que recebia todos da turma com um certo abraço que nos proporcionava um bem a vontade para compartilharmos ideias uns com os outros. Sempre fico surpreso quando os pensamentos rolam a solta pelo espaço, são pensamentos instigantes, secos, alegres, monótonos, provocadores, humanos. São pensamentos com pequenos fragmentos que nos ver o "eu" por dentro e vislumbra nossas próprias imaginações. E dentro desse cômodo chamado sala, sempre nos superamos enquanto companheiros de turma. Ali estamos propostos a tudo, do riso ao choro. São verdades emocionantes e outras com um pouco de dramatização que até acreditamos. Postagem: Finalizações dos trabalhos (Blog Corpo Palavra, 22/10/2012).

Conhecer, aprender, pesquisar, educar, ensinar, errar, compreender, ouvir, falar, se expandir, voar até o limite do teto, permanecer estável no alto, ser uma poeira planando no espaço. Carregar toda história vivenciada e gravar na memória. Silenciar verbo, iniciar um ciclo e ter como base um objetivo: cursar uma licenciatura em teatro na UFPA. A sala de aula era o espaço onde todos se entrelaçavam, lá conhecíamos o universo teatral. Todos se jogavam de acordo com sua vontade de querer criar, modificar. Se ausentar de si. Transitávamos entre a teoria e a prática e construímos registros, documento memorável do nosso aprendizado. Dependíamos de quem estava do outro lado. Desenhávamos pensamentos e compartilhávamos das pequenas ideias às grandezas que apresentavam a nós, o mundo.

Naquela sala preta se deu o início de tudo. Entramos pelo pequeno movimento da maçaneta e fomos puxados para dentro do neutro e descobríamos um universo encaixotado onde sonhos seriam descobertos, palavras seriam inventadas e o inútil seria importante para o nosso aprendizado. Vivíamos entre o interno e externo que se movimentava e gritava entre paredes. Aquele lugar era o mundo de descobertas para a vida. Ingressei apenas com minha bagagem de conhecimento artístico e me apresentei ao espaço, iniciei um ciclo com a turma 2012 e coloquei-me a disposição de representar nossa história. Como tudo era novo, tratei de conhecer o ambiente e todos os seres que transitavam pela sala. Vidas brotavam do compartilhamento, do olhar íntimo trazido de algum lugar do planeta. Tudo orbitava nos devaneios entregues à sala preta carregados de vida, de olhares íntimos e de múltiplas fontes de conhecimentos das histórias de vida.

Para analisar o nosso ser na hierarquia de uma ontologia, para psicanalisar o nosso inconsciente enterrado em moradas primitivas, é preciso à margem da psicanálise normal, dessocializar nossas grandes lembranças e atingir o plano dos devaneios que vivenciávamos nos espaços de nossas solidões (BACHELARD, 2008, p. 28).

Eu analisava a mim mesmo em cada ponto, apresentava nos exercício as lembranças das minhas solidões gravadas na memória. Ausentava-me no pequeno canto que me alimentava da descoberta de outros pensamentos, das imaginações de autores, da troca com os professores, funcionários, companheiros de cena, das pessoas que transitavam o espaço e das trajetórias de vidas que seguiram comigo durante o ciclo. Entreguei o que carregava em meu esconderijo intimo e compus um som que levasse ao outro parte do meu ser. Da minha vida dilatada em palavras, da minha imprecisão, devaneios e do que batia dentro de mim. Mais que o dialogo, experimentei viver essa fase que sustentava os meus pés. Eu era um ser no meio de um ponto que se conectava a outros pontos que se aglomeravam como as raízes de uma árvore. Construímos um vinculo de turma:

Fechado no ser, sempre há de ser necessário sair dele. Apenas saído do ser, sempre há de ser preciso voltar a ele. Assim, no ser, tudo é circuito, tudo é rodeio, retorno, discurso, tudo é rosário de permanências, tudo é refrão de estrofes sem fim (BACHELARD, 2008, p. 217).

Foi das histórias particulares de cada um que partimos para um universo acadêmico. Trafegávamos nas linhas da pesquisa e da educação, no vasto campo teatral e na experiência de vivenciar quatro anos de curso. Era sempre no horário das 18h30 que quebrávamos o espaço-tempo do cotidiano e nos ausentávamos do mundo. Multiplicávamos em três horas o que aguçava no interno para o externo dentro da sala, mudávamos com o novo, com o outro que trazia o material que faria a dinâmica funcionar. Eram vidas que marcavam foco e caminhavam pelo espaço, se jogavam, caiam, refletiam sobre o horizonte que entrava pela fresta da janela. Tudo chegava a mim pelaforça da imaginação e pela respiração que sugava todo o ambiente: o som, as cadeiras, o quadro, as infinitas palavras, a luz, o escuro, o movimento geográfico do espaço, os pequenos detalhes e a imensidão que é está vivenciando algo sem “raciocinar” sobre.

Primeiro contato que tive com a turma de 2012 de Teatro. A turma que fechou um ciclo na ETDUFPA. Estava começando tudo novamente, com pessoas novas, pensamentos diferentes, vontades diferentes. Tudo que estava se passando ali iria se alongar por quatro anos ou até mais. Já tinha um tempo na escola, mais isso não me favorecia de nada, pois de uma forma ou de outra era novo também. E por ser novo e ter um tempo na escola, não sei se me dei ou se me deram a obrigação de recepcionar o pessoal que estavam tendo o seu primeiro contato com esse universo teatral, pois ali era o ponto de partida. Era divertida a forma como as pessoas iam se soltando aos poucos, mostrando um pouco de suas personalidades. A apresentação da Profª Wlad, a conversa que tive com a Glaucia sobre famílias, sonhos e o por quê do teatro. Postagem: Primeiro dia de aula (Blog Corpo Palavra, em 12/03/2012).
Descobria tudo dentro de sala, eram informações chegando e sendo construídas. Quando percebia estava vivendo e parava para observar. Às vezes esquecia-me de tudo, me desligava da sala. Minha mente latejava, era um querer me deslocar do ambiente, do cotidiano, cedendo ao que a grade curricular me empurrava. Apagava os olhos e freava os raciocínios nos parágrafos dos textos, no deslocamento do movimento. Precisava do vento, da árvore, dos pássaros, de outro chão. Meu corpo vivia um silêncio dentro de outro silêncio e me desfazia pelo ar abafado e pelo barulho único que a turma compunha como acordes frenéticos de um conjunto musical. Fugia de mim mesmo. Queria entrar pela tomada e sair pelo espaço sideral. Desligar-me. Por todas essas sensações, resolvi conectar-me em rede ao espaço geográfico virtual. Foi ali que percebi uma fonte que me afogaria ainda mais. Um ponto de fuga, conteúdos no blog sobre tudo que acontecia e escapava pelas linhas de um sistema universal. Conheci diferentes dispositivos na sala de aula, desde a Trajetória do Ser[1] ao TCC e fui buscando, no lá fora, um pouco mais.
Meus primeiros passos se deram através das leituras apresentadas pelos professores, pelas discursões com osoutros, pelas ideias de entendimento e pelo querer saber, da troca de energia que o outro compartilhava, da ausência de chão, do suor que se desgastava nas aulas práticas e da construção de conhecimento que desdobrava em outros seres no tempo cronológico de 3h20 min. de aula.
Cada discente tinha e tem, sua qualidade própria. Precisavamos disso para seguirmos no curso. Entre tantas disciplinas, aprendi com elas, formas de se trabalhar com o teatro. Tinha a intimidade do coletivo que permanecia em todos os pensamentos. As características performáticas dos protagonistas da turma 2012 esboçavam fisionomias animalista, coloriam desenhos dentro de um castelo e como uma ninhada que percorre por cada canto, descobria o tom da harmonia, da descontração; da amizade que construímos e do momento único que virou histórias de nossas vidas.

Quando entro na sala ainda ouço o som de tudo, de cada ser. Parece que ficou no ar, pairando na atmosfera. Eu as respiro e volto novamente, em pensamentos e sensações, a essa vivência. Forampinceladas de descobertas, laboratório pessoal, êxtase de imaginações. Foi um compromisso entre a turma em quatro anos. Em alguns momentos fugíamos do formalismo acadêmico. Para nós, o teatro era outra história: um grande mar de descobertas. Uma máquina do tempo, um corpo, um movimento único dilacerado, parado, pequeno silêncio onde o mínimo te toca, era uma experiência nova a cada momento. Às vezes eram palavras simples, como essas de Eugênio Barba: “no teatro, a motivação pessoal é uma confissão, consciente ou não, que nasce de regiões do artista muitas vezes desconhecida a ele mesmo”. (BARBA, 2006, p. 64). De todos que passaram pela sala, meu pensamento se volta a cada um deles. Mesmo sem compreender plenamente o que foi essa experiência, penso que Barba me ajuda com suas palavras:

O teatro é constituído de raízes que brotam e crescem num lugar bem preciso, mas também é feito de sementes trazidas pelo vento, seguindo as rotas dos pássaros. Os sonhos, as ideias técnicas viajam com os indivíduos, e cada encontro deposita o pólen que fecunda. Os frutos amadurecem devido ao trabalho teimoso, à necessidade cega e ao espirito da improvisação, e contêm as sementes de novas verdades rebeldes (BARBA, 2006, p. 64).


Imagem 2: Licenciatura em Teatro, turma 2012.

Foi com essa turma que formei o meu pensamento teatral na universidade. Cada um mostrou seu potencial em sala e deixamos um pouco de nós em nossas memórias. A sala de aula foi o espaço de transição onde o meu pensamento de vida se modificou com o desencadeamento da pesquisa dentro da universidade. Procurei errar sem conhecer, aprendia e inventava outras coisas. Superei-me, andei pela parede, toquei no teto; quebrei a cabeça e abri o raciocínio em outras dimensões. A sala de aula era toda a escola de teatro, do buraco da biblioteca ao céu. Um espaço de transição de vidas, vozes, casas, gerações, linhas de fuga, raízes, um grande platô, uma árvore, um mapa.

Fui escrevendo o que o cérebro decodificava em olhar. Atuava nas informações que problematizavam o espaço. Recebia conteúdos e me juntava a outros grupos, a outros pensamentos que levantavam voos em outras extensões. Sentia-me dilatado pela escola: observava o silêncio, a chuva que abafava os gritos, o final da noite quando os portões se fechavam e traziam o sono do castelo. Vivi pelas emoções, pela minha turma, pelas imaginações que transbordavam uma saliente lágrima que apertava o coração. Como um grande palco, a história se dava a cada instante que pensava teatro. Experenciei de tudo: vi um elefante no pátio, um quintal maior que o mundo, a toca da biblioteca, a terceira margem do céu e uma linha infinita de vidas.





[1] Trajétoria de Ser é uma das atividades curriculares que compõem o primeiro semestre do curso. Essa atividade é considerada a porta de entrada e de acolhimentos dos alunos licenciandos no universo do curso e do teatro. Basicamente, ela tem o objetivo de dar conhecimento sobre as diferentes histórias de vida presentes na composição do coletivo que se inicia – no caso, a turma 2012. 

O Blog

A proposta da pesquisa em trajeto consisti em cartografar um “Diário de Bordo”. Nesses quatro anos de universidade criei para mim um locus que guarda o conhecimento artístico que vivenciei no curso. Para tanto, conciliei minha vida à descoberta de saberes, investindo na minha formação teatral, como artista-professor-pesquisador. Modifiquei planos e sobrevoei por disciplinas que ilustravam o modo de fazer, de ensinar e de pesquisar Teatro. Criei o blog Corpo Palavra (https://palavra-corpo.blogspot.com)  e experimentei errar, conhecer e aprender arefletir sobre modos e formas. Transcrevi em páginas virtuais, vivências e pesquisas desenvolvidas dentro e fora da universidade. Rompi o elo da aprendizagem restrita, subordinada ao conhecimento repassado pelo professor e propus-me expandi para o blog tudo o que foi suscitado dentro da sala de aula com um olhar poético não convencional:

Imagem 1: Blog Corpo Palavra. (https://palavra-corpo.blogspot.com)

Com o blog, a pesquisa se deu em torno dessa vivência acadêmica registrada em Diário de Bordo. Uma plataforma virtual da minha trajetória como artista-professor-pesquisador. Uma investigação da escrita; uma cartografia digital artística disponibilizada na web.

A pesquisa tende pôr em análises críticas, as postagens e seus desdobramentos na perspectiva de novas criações, mostrando a comunicação teatral em rede. O Blog Virtual é um dispositivo passível de suportar o desenho do plano de consistência onde está organizada uma trajetória de formação de um artista-professor-pesquisador, no caso, a minha própria formação.

Ao elaborar o projeto de pesquisa obtive de Wlad, proposições para a concepção da pesquisa. Eu tinha a ideia de falar a partir do blog, mas apenas como auxiliador na memorização dos trabalhos; do que realizei dentro da universidade. A professora Wlad propôs mais radicalidade: a revelação plena do blog como sujeito da pesquisa. Essa consideração deu maior consistência à proposta: cartografar, diretamente, os relatos e reflexões postadas no Diário de Bordo, já existente. Essas narrativas com território existencial da pesquisa.

O blog Corpo Palavra, criado no início do curso, é um memorial artístico, portfólio de trabalhos vivenciados dentro e fora da universidade, registro de um ciclo acadêmico, um verdadeiro caderno de professor – para o futuro - com ferramentas que ajudam a construir um processo de trabalho artístico-pedagógico para aqueles que viveram o ser professor-criador.

Defendo a ideia do blog como ponto de apoio dos pensamentos que se multiplicaram durante os quatro anos de curso. O blog é o meu campo de imanência, nele dei organicidade às ideias que iam surgindo e ainda surgem; materializei o que estava em pensamento e busquei criar no corpo, em palavras, em imagens, em linhas que dão norte a pesquisa de conhecimento. Apresentei-me em processo, em outras margens além da sala de aula.

Sustento a pesquisa partindo dos pensamentos de Gilles Deleuze e Félix Guattari sobre o conceito de Rizoma. Deleuze e Guattari, em Mil Platôs 1 (DELEUZE; GUATTARI,1995), explanam sobre o princípio rizomático que multiplica e gera um encadeamento a outros pontos. Um rizoma que nasce e se conecta com outros rizomas:

Falamos exclusivamente disto: multiplicidade, linhas, estratos e segmentaridades, linhas de fuga e intensidades, agenciamentos maquínicos e seus diferentes tipos, os corpos sem órgãos e sua construção, sua seleção, o plano de consistência, as unidades de medida em cada caso. Os estratômetros, os deleômetros, as unidades CsO de densidade, as unidades CsO de convergência não formam somente uma quantificação da escrita, mas  definem como sendo sempre a medida de outra coisa. Escrever nada tem a ver com significar, mas agrimensar, cartografar, mesmo que sejam regiões ainda por vir (p. 11).

O blog é uma extensão de mim, um plano de consistência para as minhas ideias, ações, pensamentos, escrita; um ponto de fuga que discorre das sensações que gritam no interior. É um espaço que muda as coisas de lugar, coloca as ideias e a pratica em organização. Comunica a forma de organicidade, mostra o conteúdo da essência, pulsa um devir.

Decidi publicar o blog Corpo Palavra como um Diário de Bordo e relatar a trajetória de um formando em Teatro. Nesse diário, o processo de formação parte de um conhecimento profissional adquirido na universidade para o compartilhamento em rede com outros profissionais da arte que utilizam a blogosfera para comunicar, produzir e gerar um encadeamento de informações do meio artístico e toma-lo como produção de conhecimento. O compartilhamento se dá através de “posts” trazendo conteúdos que atravessam o teatro por imagem, vídeo e texto, buscando o sentir ao estar em processo de produção de conhecimento e arte.

Foram quatro anos de curso e tudo o que busquei conhecer partiu do ensino acadêmico, dos diálogos com outros profissionais e das leituras que demarcavam o percurso do pensamento reflexivo. Vivi a universidade por meio de atuações, experimentações e transições que me fizeram descobrir todos os meus atravessamentos-pensamentos. Desloquei-me de um lugar ao outro, saindo do meu contexto habitual e me adaptando a novos lugares através do teatro. Nesse percurso cartografei sentidos; construir linhas de encenação, de composição, linhas de fuga; observei, agenciei, vivenciei e criei a minha própria formação acadêmica.

Quando criei o Corpo Palavra, joguei na rede um pouco do meu conhecimento, dos meus processos criativos, da minha pesquisa e trabalhos artísticos que ia produzindo nesses quatro anos de curso. Tive disciplinas que disparavam em mim um meio para transpor pensamentos e produzir através de palavras o que estava vivenciando. O blog carrega todos os meus trabalhos, tanto os realizados na sala de aula quanto os que foram produzidos para além dos muros da universidade. Tem o antes, o durante e uma proposta de vislumbramento para o que suceder pós-formado.

No blog procuro recriar minha história além da linguagem textual, busco transcrever em postagens poéticas uma imagem-sonora, uma escrita em diário de bordo. Cartografar meus resultados e me conectar em outras extensões. Sigo o cotidiano; palavras sublinhadas em outras redes. O blog que registra esse diário de bordo carrega um memorial de um artista em construção.  Um meio de não seperder, de se perder achando fatos, processos e composições, linhas de um pensamento educacional, artístico, acadêmico e profissional.

Nas postagens, a forma de ensinamento ministrada pelos professores disparam novos olhares para o fazer teatral. Educar, adquirir conhecimento, pôr em prática ações. Se informar e aprender os trânsitos do ensinamento. Aprender a arte e se profissionalizar com a prática.

O blog parte, do ponto do meu ingresso na Universidade Federal do Pará. Ingressei em 2011 no curso Técnico em Ator e em 2012 no curso de Licenciatura em Teatro. Nesse ciclo duplo de formação me conectei com outras áreas do conhecimento artístico, filosófico e cientifico, participei como estudante de teatro de processos criativos e construí pensamentos sobre uma formação teatral dentro da universidade. Cartografei em postagens no blog, em forma de texto literário, poético, todo o meu ensino-aprendizagem.

A pesquisa em andamento – processo não se encerra no TCC - mostra um meio de se chegar a comunicar de forma poético-reflexiva o processo de criação de um formando em Teatro. Suporte que carrega informações de um caminho em construção; é nele, no blog, que o artista-professor-pesquisador deixará rastro para processos futuros, onde a memória recriará sentidos para o que já foi iniciado.

Para fechar, temporariamente essa introdução, dois pensamentos poéticos de artistas: de Tadashi Endo: “mover-se significa ir em frente, deixar o primeiro (ponto), e cada passo nos leva em direção ao futuro”; e de Ana Cristina Colla: “caminhante, não há caminhos. Só rastros”.